Os desafios da pesquisa na Amazônia
As pesquisas realizadas na(s) Amazônia(s) brasileira(s) apresentam dificuldades específicas que apresentamos aqui na forma de uma breve reflexão, apontando também traços comuns entre os problemas que enfrentamos e aqueles que podem ser encontrados em outros espaços da prática antropológica.
Em primeiro lugar, muitos são os deslocamentos para a realização do trabalho de campo em face tanto da diversidade social e geográfica da região. As distâncias são enormes. Trabalhamos, no mais das vezes em localidades inacessíveis durante as cheias dos rios, ou ainda durante as secas, o que compromete qualquer cronograma de pesquisa. Isso ocorre especialmente quando se faz trabalho junto a povos indígenas que vivem em regiões de difícil acesso.
Frequentemente, os transportes envolvem vias fluviais, rodoviárias e aérea – isto em uma só etapa de trabalho de campo! O que implica tanto em alto desembolso em gastos como combustível para e aluguel de embarcações, quanto na contratação de serviços não previstos pelas agências de financiamento de pesquisa no Brasil. Este é o caso da incontornável contratação de pessoas físicas que nem sempre possuem a documentação requerida, ou o treinamento adequado para o exercício das funções logísticas necessárias para a pesquisa na Amazônia.
Em segundo lugar, além do acesso, há a questão da permanência em lugares remotos ou com infraestrutura não convencional. Quando nos instalamos na casa de moradoras/es de uma determinada localidade devemos contribuir com a subsistência daqueles que nos alojam. Compramos o “rancho” – gêneros alimentícios para a nossa estada – e o compartilhamos com nossos anfitriões. Em geral, nossas/os interlocutoras/es dispõem de abrigo, mas não de alimentos para pessoas que não sejam do núcleo doméstico. A decisão de permanecer nas casas das/os interlocutoras/es é parte estratégica da atividade antropológica, pois nos aproxima das pessoas com as quais procuramos construir nossas pesquisas, oferecendo acesso diferenciado às realidades que abordamos. Os editais de fomento muitas vezes ignoram a especificidade do trabalho de campo antropológico – o que dificulta nossas pesquisas e cria a necessidade de justificar gastos a posteriori. Tal é o que ocorre com um dos itens mais importantes dos orçamentos de pesquisa de campo, as diárias, que em geral são escassas nas previsões das agências de fomento.
Um outro problema, por vezes invisibilizado, são as diferenças de fuso horário entre a(s) Amazônia(s). Temos horários diferentes no Acre, no Amazonas, em Rondônia e em Roraima. E no estado do Pará há mais de um fuso horário. Tal situação dificulta a comunicação com as agências de fomento à pesquisa nacionais, somando-se a instabilidade ou falta de comunicação, via internet, e mesmo de rede telefônica celular característica de nossos locais de pesquisa.
No que se refere, especificamente ao tema das nossas investigações, o conflito, enfrentamos outros desafios. Escolhemos como interlocutoras/es lideranças e coletivos que, principalmente nos últimos tempos, vem sendo ameaçadas/os e até mesmo criminalizadas/os. Ao adentrar no tema dos conflitos fundiários, das sobreposições territoriais, dos massacres e de violações sistemáticas aos direitos de minorias sociais (mulheres, crianças, jovens), precisamos adotar medidas de cuidados para nossa segurança e, principalmente, para a segurança das/os nossas/os interlocutoras/es, que permanecem nos locais após o retorno das/os pesquisadoras/es. Por isso, se faz fundamental construir acordos sobre o que divulgar, o que enfatizar, o que não expor. Quem ou o quê precisa ser preservado e o que precisa se tornar visível. Mais do que acordos estáveis no tempo, essa dimensão da negociação é sempre provisória, sujeita aos acontecimentos políticos e sociais que seguem ocorrendo, transformando, modificando, independente do término formal da nossa etapa de pesquisa. Por isso, convidamos a todas e todos a consultarem e reconsultarem o material disponibilizado aqui, que também está em constante reformulação.